Levantamento do R7 mostra que a maioria dos deputados que se reelegeu em 2006 após o escândalo terá caminho mais livre no ano que vem porque o caso é ''fato esquecido''
- Os mais politizados podem até se lembrar [nas eleições de 2010] mas essa lembrança do mensalão deveria ser feita pela oposição, que já abdicaram há muito tempo do seu papel. Eles conseguem passar três anos no seu mandato quase na sombra, são quase deputados-fantasma, pode reparar, e agora em 2010 voltam a ser protagonistas, jogam com o tempo a favor.
Em 2006, oito deputados envolvidos no caso conseguiram se reelegar para uma vaga na Câmara mesmo com o escândalo "fresco" do ano anterior, como João Paulo Cunha (PT-SP), José Mentor (PT-SP), Vadão Gomes (PP-SP), Sandro Mabel (PL-GO), Pedro Henry (PP-MT), Paulo Rocha (PT-PA), Valdemar da Costa Neto (PR-SP) e José Genoino (PT-SP).
Destes, quase todos vão tentar a reeleição em 2010. Paulo Rocha vai tentar uma vaga no Senado pelo Pará e apenas o gabinete de Pedro Henry disse que o deputado "ainda não falou sobre o assunto". Genoíno concorda que é muito cedo para avaliar uma posição, mas que a princípio quer continuar com a sua experiência ''pleiteando a vaga na Câmara''. Já o ex-deputado petista Professor Luizinho - que não conseguiu se reeleger em 2006 - disse que não tem nenhuma vontade de se candidatar, mas que vai continuar ''militando e colaborando com o PT internamente''.
- Morrerei no PT, nunca passou pela cabeça sair do partido e nunca passará.
Mesmo sem mandato, José Janene e Pedro Henry fazem parte da Executiva Nacional do PP, eleita em abril para os dois próximos anos e ocupam a vaga de primeiro tesoureiro do PP e 5º vice-presidente, respectivamente. Janene era tesoureiro do partido na época da crise e Henry já era deputado federal.
O deputado cassado Pedro Corrêa também figura como membro da Executiva Nacional e a assessoria da sua filha, a deputada federal e vice de Paulo Maluf na disputa de 2008, Aline Corrêa, disse que "não é de seu conhecimento" qualquer intenção do ex-deputado em 2010. O ex-ministro da Secretaria de Comunicação da Presidência do governo, Luiz Gushiken, não foi localizado pela reportagem e o seu advogado disse que "ele está trabalhando" mas não disse onde. Roberto Jefferson, um dos principais personsagens do mensalão e ex-deputado cassado, preside o PTB.
Outros mensaleiros se afastaram ou foram afastados do mandato, mas participam da vida política por meio da internet, como o caso do ex-ministro da Casa Civil José Dirceu e do ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares. Dirceu, ex-homem forte do governo Lula, foi um dos três deputados que tiveram o mandato cassado e por isso não pode concorrer a nenhum cargo público por oito anos, mas fala com o eleitorado do PT - que chama de "nosso partido''- pelo "blog do Zé Dirceu".
O ex-tesoureiro Delúbio Soares foi expulso do PT no auge da crise e cogitou a filiação a algum partido até o último sábado - prazo limite para candidatos a 2010 entrarem em alguma legenda - mas não aderiu a nenhuma legenda e ficou de fora da disputa de 2010. No seu blog "Companheiro Delubio", ele postou uma nota entitulada "Minha decisão" em que agradece ''a todas as lideranças dos partidos que me convidaram à filiar-me em seus quadros e disputar um mandato por Goiás''. Lideranças do PT disseram que Delúbio retirou o seu pedido de refiliação ao partido para não "causar constrangimento" a outros dirigentes e que a decisão de aceitar Delúbio de volta teria de ser "consensual". O R7 tentou contato por e-mail e telefone, mas não obteve retorno.
Colaborou Wanderley Preite Sobrinho, do R7
Entenda o escândalo do mensalão
Entre os 39 acusados, estão parlamentares, ex-ministros, dirigentes do Banco Rural e o empresário e publicitário Marcos Valério
O mensalão é o nome do principal escândalo que atingiu o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2005 - durante o primeiro mandato - e que consistia em um esquema de pagamento de propina a parlamentares para que votassem a favor de projetos do governo. Entre os 39 acusados, estão parlamentares, ex-ministros, dirigentes do Banco Rural e o empresário e publicitário Marcos Valério. O ex-chefe da Casa Civil José Dirceu era apontado como chefe do esquema.
A crise começou com uma entrevista em junho de 2005 em que Roberto Jefferson, à época deputado federal, disse para o jornal Folha de S.Paulo que o mensalão existia e envolvia o PT, PL [que hoje se fundiu com o Prona e virou PR], PTB e outros . O ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares foi a público negar que pagava a mesada e ofereceu abrir seu sigilo fiscal, bem como o sigilo bancário de suas contas pessoais.
Foi no depoimento ao Conselho de Ética da Câmara que Jefferson contou que havia avisado os ministros Aldo Rebelo, Walfrido Mares Guia, Ciro Gomes, Miro Teixeira, José Dirceu e Antonio Palocci sobre o esquema. Dirceu e Palocci negaram terem sido alertados, mas os outros admitiram que sabiam. Neste depoimento, ficou famoso o pedido de Jefferson para que Dirceu saísse do governo "rapidinho".
Uma semana depois que o caso estourou, Dirceu, que era considerado o homem forte de Lula, pediu para sair da Casa Civil e foi substituído pela atual ministra Dilma Rousseff. No dia seguinte, Jefferson se licenciou da presidência do PTB onde está atualmente e no dia 5 de julho foi a vez de Delúbio Soares se licenciar do cargo de tesoureiro do PT. Ainda em julho foi instalada a CPI do Mensalão que ouviu praticamente todos os envolvidos no caso.
Em 12 de agosto, o presidente Lula fez um pronunciamento na TV em que se disse "traído" e afirmou que o ''PT tem que pedir desculpas", mas não citou nomes. Em 30 de agosto, Delúbio envia à CPI do Mensalão uma carta envolvendo PSB e PC do B no esquema.
A CPI do mensalão aprova em setembro relatório que pede a cassação de 18 deputados: Carlos Rodrigues (PL-RJ), João Magno (PT-MG), João Paulo Cunha (PT-SP), José Borba (PMDB-PR), José Dirceu (PT-SP), José Janene (PP-PR), José Mentor (PT-SP), Josias Gomes (PT-BA), Paulo Rocha (PT-PA), Pedro Corrêa (PP-PE), Pedro Henry (PP-MT), Professor Luizinho (PT-SP), Roberto Brant (PFL-MG), Roberto Jefferson (PTB-RJ), Romeu Queiroz (PTB-MG), Sandro Mabel (PL-GO), Valdemar Costa Neto (PL-SP) (que já havia renunciado um mês antes), Vadão Gomes (PP-SP), Wanderval Santos (PL-SP). Destes, apenas Dirceu, Corrêa e Jefferson perderam o mandato e com isso os direitos políticos por oito anos.
Em outubro, o PT expulsou Delúbio, que tinha autonomia para administrar as despesas e receitas do PT e em dezembro a CPI dos Correios divulga relatório que aponta para a existência do mensalão em quatro padrões de funcionamento do esquema: pagamentos semanais para o PL, dinheiro para trocas de partido, compra de votos de parlamentares e pagamentos para o PP.
Em 2006, a Procuradoria Geral da República apresentou ao STF [Supremo Tribunal Federal] denúncia contra 40 pessoas supostamente envolvidas com a compra e venda de votos que favorecessem o governo e no ano seguinte o STF converteu o processo em ação penal e os acusados passaram a responder como réus.
O relator do caso no STF, ministro Joaquim Barbosa, autorizou juízes federais de oito Estados e do Distrito Federal a interrogar os acusados e receber a defesa prévia dos réus, como forma de agilizar o andamento. Neste ano, a Justiça começou a ouvir testemunhas de defesa dos principais acusados e processo ainda deve levar pelo menos dois anos para chegar a julgamento final pelo Supremo.
O mensalão passou a contar com 39 réus depois que o ex-secretário geral do PT Silvinho Pereira fez um acordo com a Procuradoria Geral da República que suspendeu o processo movido contra ele e em troca prestou serviço comunitário. Ele era acusado por formação de quadrilha.
Fonte: www.r7.com.br